O Mundo É uma Bola

O Mundo É uma Bola - Luís Curro
Luís Curro
Descrição de chapéu Futebol Internacional

A razão prevaleceu quando o desejado era a emoção

Na Inglaterra, treinador precisa explicar por que não colocou em campo um jovem jogador para atuar contra o pai veterano

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Everton x Peterborough, na quinta-feira (9), em Liverpool, seria apenas mais uma partida entre as dezenas de um dos mata-matas iniciais da Copa da Inglaterra (FA Cup), tradicionalíssima competição que existe desde 1871 –é a mais antiga de todas no futebol.

Porém havia algo bem diferente nesse jogo. A possibilidade de um jogador veterano, Ashley Young, 39, já em fim de carreira, enfrentar um jovem de 18 anos. Não um jovem qualquer. Tyler é seu filho.

Não é tão raro filhos e pais estarem na mesma profissão, e isso acontece também no futebol.

Entre famosos, há/houve Pelé e Edinho, Diego Maradona e Diego Jr., Zinédine Zidane e Luka, Johan Cruyff e Jordi, Diego Simeone e Giovanni, Cesare Maldini e Paolo, Pablo Forlán e Diego, Mazinho e Thiago/Rafinha.

Só que pais e filhos atuarem juntos, seja no mesmo time ou como adversários, em uma partida –não uma partida familiar ou entre amigos, aquela de fim de semana, em meio a um churrasco, mas uma válida por competição profissional– é extremamente atípico.

Lembro-me de Rivaldo, campeão do mundo com a seleção brasileira na Copa de 2002 (Coreia/Japão), ter atuado com Rivaldinho, 18 anos à época, pelo Mogi Mirim. Foi no Campeonato Paulista de 2014, antes de o craque, que estava com 41 anos, anunciar o encerramento da carreira.

Durante treino da seleção brasileira em Vigo, na Espanha, em 1999, o jogador Rivaldo segura no colo Rivaldinho, seu filho, que aponta para a frente com o dedo indicador da mão esquerda
Durante treino da seleção brasileira em Vigo (Espanha), Rivaldo segura Rivaldinho, seu filho; os dois jogariam juntos pelo Mogi Mirim quase 15 anos depois - Juca Varella - 11.nov.1999/Folhapress

Recentemente, em outubro do ano passado, no basquete, o superastro LeBron James, com 39 anos, jogou ao lado do filho Bronny, 20, pelo Los Angeles Lakers, contra o Minnesota Timberwolves, na NBA.

É sempre uma grande emoção quando isso acontece, pai e filho sorriem, abraçam-se, choram. Um momento muito especial, que deixa também emotivo o público, seja no estádio/ginásio, seja fora, onde uma tela esteja exibindo o acontecimento.

Assim, era muito esperado que no confronto no Goodison Park Ashley e Tyler se tornassem a primeira dupla pai-filho a duelarem na história da FA Cup.

Isso dependeria dos treinadores: o interino Leighton Baines (Everton) e Darren Ferguson (Peterborough).

Ashley atualmente é lateral direito. No final da primeira década deste século, era atacante (de qualidade, com muita velocidade e fôlego), defendendo o Aston Villa. Vestiu também as camisas de Watford, Manchester United e Inter de Milão. Pela seleção inglesa, foram 39 jogos.

O meia Tyler ainda "engatinha" no clube da terceira divisão. Integrado nesta temporada à equipe principal, antes do esperado duelo com o pai tinha estado em campo em uma única partida, como substituto, pelo Troféu EFL, a terceira copa em importância na Inglaterra.

Ashley Young, próximo ao filho Tyler, depois da partida entre Everton e Peterborough, em Liverpool, pela Copa da Inglatrerra; eles estão de costas um para o outro, Ashley com a camisa azul do Everton e Tyler com agasalho preto, e agradecem à presença da torcida no estádio Goodison Park
Ashley Young, próximo ao filho Tyler, depois da partida entre Everton e Peterborough, em Liverpool, pela Copa da Inglatrerra - Jason Cairnduff - 9.jan.2025/Action Images via Reuters

Os dois começaram na reserva. Ashley é titular, contudo, em embates das etapas iniciais das copas, os times da primeira divisão (como o Everton) costumam poupar os principais jogadores.

Na metade do segundo tempo, com o Everton ganhando por 1 a 0, Baines inseriu Ashley no jogo. Faltava Ferguson fazer o mesmo com Tyler.

ó que não aconteceu, o que gerou um sentimento de frustração nos fãs de futebol e na mídia. A história não foi feita, e uma nova chance sabe-se lá quando voltará a ocorrer.

Depois do jogo, que terminou 2 a 0, o treinador do Peterborough teve de explicar por que não chamou Tyler.

Darren Ferguson, treinador do Peterborough, cumprimenta o jogador Ashley Young, do Everton, que usa camisa com o número 18 às costas, depois de partida entre os times no estádio Goodison Park, em Liverpool, pela Copa da Inglaterra
Darren Ferguson (dir.), treinador do Peterborough, cumprimenta Ashley Young, do Everton, depois de duelo entre os times no Goodison Park - Jason Cairnduff - 9.jan.2025/Action Images via Reuters

"Por mais que eu quisesse que Tyler entrasse, com 1 a 0 tive que colocar um atacante. Tenho que tentar o melhor para o meu time. Não dava para ser benevolente."

Uma pesquisa no site da BBC mostra apoio à decisão de Ferguson: 69% dos leitores que votaram consideram que ele agiu corretamente. Eu sou um dos 31% que discordam. Queria que o emotivo, desta vez, tivesse suplantado o racional.

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