No início eu estava um pouco tensa. Ainda amanhecia. Ele me fez acordar mais cedo do que o usual, roubando o espaço da minha preguiça matinal que eu tanto preciso para funcionar. Eu sentia fome, queria mesmo era tomar logo o café da manhã e começar o dia com tantas tarefas que tinha pela frente. Olho para ele com impaciência, não consigo disfarçar o incômodo. Ele percebe, mas, sabendo exatamente o que queria de mim, não desiste. Com segurança e uma voz calma e suave ele pede, olho no olho: "Relaxa, confia em mim, esquece da vida e deixa que eu cuido de tudo".
Aos poucos, sua habilidade vai vencendo minha resistência. Ele encosta no meu braço, depois segura firme a minha mão, sempre com muita delicadeza e respeito, enquanto tenta ganhar a minha confiança. Me faz algumas perguntas —me ouve de verdade, coisa rara— e fala um pouco sobre ele. Depois de uma conversa, não lembro direito sobre o quê, tudo começa. Uma entorpecência entra nas minhas veias e uma moleza vai tomando conta de mim, até eu não saber mais onde estou.
Eu quero e não quero ao mesmo tempo; sinto um desejo e uma hesitação. O peso da consciência insiste, mas a leveza me puxa com mais força e vence. O corpo finalmente obedece ao comando da mente relaxada e eu acabo me entregando de vez.
A sedução vira sedação. A tensão vira tesão, o maior de todos: o tesão de não precisar ter controle sobre nada; o tesão do dane-se, da irresponsabilidade, do deixa rolar. Ele é certeiro e, experiente, sabe exatamente o ponto do meu corpo onde quer chegar. E conhece bem o caminho. Começa pela boca, que é onde começam os maiores prazeres, e me leva a percorrer, junto com ele, a viagem maravilhosa até outras partes do meu interior.
Eu me deixo invadir sem resistências e, totalmente relaxada, libero algumas fantasias, balbuciando palavras sem sentido que vêm diretamente do meu subconsciente. Perco o freio e a vergonha.
O mergulho para minhas profundezas acontece de um jeito leve, fluido, sem o raciocínio para atravancar o caminho. Depois disso, não me lembro mais de mais nada, como se um borrão tivesse apagado a minha memória. Só sei que durante um tempo, que não sei se longo ou curto, tiro uma folga de mim mesma, apesar de continuar a ser eu —ou talvez, sendo mais eu do que nunca.
O ato não acaba quando termina: o depois é ainda melhor do que o durante. É quando minha consciência fica entre o lá e o aqui. O corpo ainda levita; a mente livre, meio boba, meio alegre; as pernas sem forças. Falo algumas bobagens, rio do nada. Sinto uma felicidade gratuita, uma felicidade sem explicação, sem merecimento. E quero mais, só mais um pouquinho dessa sensação, que só consegue entender quem já sentiu.
Mas ele já não está lá. Aproveitou meu estado sonolento para sair sem se despedir. Desapareceu da minha vida com a mesma rapidez com que entrou.
Não teve sequer a delicadeza de perguntar se tinha sido bom para mim. Nada. Nem telefone para uma eventual emergência (ou um desejo emergente).
Ainda malemolente enquanto escrevo essas linhas, trago comigo a magia da manhã de hoje, me lembrando apenas da amnésia que me acometeu durante aquele momento mágico.
O laudo da endoscopia sai em três dias.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.